Da galeria do Toural à cobertura da Santo António

 

A rua de Santo António coberta (especulação fotográfica imaginada por IA)


Uma das marcas da identidade de Guimarães é a relevância da sua sociedade civil, no sentido que lhe deu Habermas de “núcleo institucional formado por associações e organizações livres, não estatais e não económicas”, base social das esferas públicas autónomas, de que não nos faltam bons exemplos, desde a Sociedade Martins Sarmento à Unidade Vimaranense. Uma relevância que, em tempos de municipalização de (quase) tudo, entrou num ciclo de refluxo e anomia, assunto a que prometo voltar. Por agora, recordo um projeto de uma dessas instituições da sociedade civil vimaranense, o Grupo de Propaganda Por Guimarães, que propôs um interessante programa de melhoramentos da cidade, para benefício do bem-estar dos vimaranenses.

A primeira marca da República na paisagem urbana vimaranense foi a reconfiguração do Toural. Do jardim elitista, cercado por grades e fechado com portões de ferro, ficou “apenas a triste memória, para dar lugar a um largo acentuadamente moderno, de largas ruas laterais”. Na placa central da praça, revestida pelo mosaico desenhado por José Ribeiro de Freitas, destacava-se o monumento a D. Afonso Henriques, deslocado do terreiro de S. Sebastião, durante as celebrações afonsinas de 1911.

Por aqueles dias, o Grupo Por Guimarães, projetou instalar uma galeria em frente às 44 portas que se abrem na fachada nascente do Toural, concebida pelo capitão Luís Augusto de Pina. Teria uma cobertura de vidro pintado a azul celeste, suportada por colunas de ferro forjado e arcos com vãos de seis metros. A obra, com um custo relativamente modesto (não mais de 50 000 euros, em dinheiro de hoje), seria financiada pelo Grupo e reembolsada pelos proprietários, em 12 anos.

Este projeto propunha-se valorizar o Toural, enquanto espaço central da cidade, “dando realce à soberba frontaria que o embeleza, oferecendo assim aos vimaranenses um lugar de estacionamento apropriado e aos estranhos um aformoseamento impressionante”. Criava-se um passeio abrigado e aprazível, sem se descuidar o retorno económico, decorrente da valorização do comércio que ali se fazia.

Recordo este empreendimento, que nunca se concretizou, a propósito do anúncio de que a Câmara, em resposta à oposição de empresários do comércio dito tradicional à pedonalização do centro histórico, está a ponderar a instalação de uma cobertura sobre a rua de Santo António. Confesso que não sei bem o que seja hoje o comércio tradicional e ainda fico a saber menos quando vejo, na mesma frase, a sua defesa e o lamento pelo encerramento de uma loja da Zara e pela ausência de lojas-âncora e não repetirei os argumentos que demonstram que a pedonalização é vantajosa para o comércio. O que estranho é que se recupere agora uma ideia velha e revelha, abandonada porque não tinha pés para andar.

De que é que se fala quando se fala em cobrir uma rua em Guimarães? Em instalações artísticas, como os guarda-chuvas coloridos de Águeda ou a Paisagem Etéria instalada no verão de 2021, na rua de Santa Catarina, no Porto? Nos toldos que se estendem sobre as ruas de cidades como Málaga, no pino do verão andaluz? Ou em algo permanente, como as passagens cobertas de Paris ou o icónico Salão de Milão?

Se a ideia for cobrir a rua com criações artísticas temporárias, nada tenho a opor, a não ser uma simples pergunta: porquê apenas na rua de Santo António?

Já quanto à solução malaguenha, convém advertir que Guimarães não sofre dos calores da Andaluzia e que não precisa que lhe escondam o Sol no verão — por cá, o problema é mais a chuva, que não se resolve estendendo mantas entre o céu e a terra.

Por outro lado, passagens cobertas permanentes, como as de Paris ou Milão, são galerias que foram concebidas e construídas de raiz para terem cobertura. Não é esse o caso da rua de Santo António, feita de edifícios com fachadas irregulares, andares assimétricos e cérceas desiguais. A que altura se colocaria a cobertura? Pela cota do edifício mais alto? Pelo peitoril das janelas do 1.º andar? No dia em que houver resposta para esta questão, ainda haverá uma mão cheia de dúvidas que precisam de ser bem peneiradas, até que nos convençam que vale a pena discutir o assunto.

Tapar o céu com a peneira nunca foi solução.


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