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| A primeira direcção do Vitória Sport Clube. |
O futebol não é somente um simples jogo que se
disputa, preferencialmente, com os pés, em que duas equipas de onze jogadores
se enfrentam num hectare de terreno dividido em duas parcelas do mesmo tamanho,
praticando uma espécie de bailado desconcertante, com o objetivo de introduzir
uma bola na baliza da equipa adversária. Ao longo do século XX, o futebol
tornou-se em algo muito mais sério do que um simples jogo, quase numa religião
em que a fé dos devotos se mistura com efervescências bairristas ou patrióticas.
Ocupa hoje, no espaço público, mais tempo de antena do que o debate das grandes
questões que afetam o mundo em que vivemos. Tende a escapar à racionalidade.
Como escreveu, o antropólogo Desmond Morris, no livro que dedicou ao estudo do
comportamento do animal humano em torno do futebol, “visto objetivamente, este
é um dos padrões de comportamento humano mais estranhos que podemos observar em
toda a sociedade moderna”.
Há no fenómeno do futebol muito que é difícil de
compreender para quem, não sendo adepto, o olha de fora com o mesmo interesse
com que observa outras manifestações do comportamento humano. Esse será o meu
caso: as disputas e as discussões acerca do futebol interessam-me muito pouco,
mas percebo a sua importância na sociedade contemporânea e tenho dedicado algum
tempo ao seu estudo, do meu ponto de vista, que é o da história, ciência com a
qual este desporto tem uma relação muito estranha. Não terá sido por acaso que
alguém (julgo que o treinador Bruno Lage) cunhou a expressão “o futebol é o
momento”, que é como quem diz que o que importa é o que acontece hoje no
relvado, e que o passado, seja o das estatísticas, seja o da história, não
interessa. Vai daí, dedica-se menos tempo a estudar a história do futebol do
que a falar dela. E, se a história conhecida e demonstrada tem lacunas, isso
não será problema: preenchem-se os espaços em branco com efabulações ou
“aprimoram-se” os factos para incrementar a glória dos clubes e outras
vaidades, acrescentando-lhes antiguidade e conquistas. Assim acontece com dois
dos clubes portugueses, ditos grandes, que retocaram as suas histórias
oficiais: um fez recuar a data da sua fundação até uma data inverosímil, outro
tentou ampliar artificialmente o número de campeonatos nacionais que constam do
seu palmarés.
Se o Vitória Sport Clube, o clube mais
representativo de Guimarães, não acrescentou anos, nem títulos, ao seu
historial, não tem cuidado como devia cuidar do estudo da sua história. Em
relação aos seus primeiros anos, continua a persistir numa narrativa “oficial”
que veicula factos incrustados pela tradição que os documentos contradizem e
que não respeita nem a factualidade histórica, nem os nomes dos seus
fundadores. As celebrações do centenário, apesar das boas intenções iniciais e
de algumas contribuições importantes, parecem estar a ser, nesta matéria, uma
oportunidade perdida.
Há ainda muito por saber dos primeiros anos do
Vitória. Não sabemos, por exemplo, a data em que o clube foi fundado.
Provavelmente essa data nem sequer existe. Pelo que se sabe, a ideia da criação
de um clube desportivo que representasse Guimarães foi germinando lentamente.
Houve várias tentativas para a concretizar, desde os primeiros anos da década
de 1910. Em 1922, com o surgimento do grupo que publicou o jornal Pro-Vimarane,
a ideia ganhou novo impulso. No verão daquele ano, “um pequeno grupo de rapazes”
trabalhava “afincadamente na organização de um Club Desportivo” e procurava um
campo adequado para a prática desportiva. Como resultado do seu trabalho,
nasceu o “Victoria Sport Club de Guimarães”, que se apresentou ao público, pela
primeira vez, no dia 17 de dezembro de 1922, no campo da Atouguia. Esta é a
data mais antiga em que aparece, expressamente referida, a existência do VSC.
Passam 100 anos no próximo mês. Não devia ficar esquecida.
Os documentos disponíveis (até agora, apenas
breves notícias de jornais) demonstram, para além de qualquer dúvida, que o
“grupo de rapazes” que fundou o Vitória Sport Clube era liderado por Mariano
Fernandes da Rocha Felgueiras, filho do então presidente da Câmara, Mariano
Felgueiras, e que em 1924 emigrou para o Brasil, de onde não regressou, e
integrava José Ribeiro Jorge, Luís Gonzaga Leite, Arlindo Leite Ribeiro,
Avelino Augusto de Araújo Dantas, António Antunes de Castro Júnior, Joaquim
António Antunes de Castro, Afonso Pires, Emílio de Macedo, Luís Rodrigo Graça,
José de Freitas Neves. Os seus nomes, a que deve ser acrescentado o do seu
mentor, António Macedo Guimarães, não devem ser apagados.
A história da primeira década do Vitória é uma
crónica de luta pela sobrevivência, em grande medida pela dificuldade em ter e
em manter um campo de jogos. Passa pela Atouguia, pelo Campo de José Minotes e
pelo Campo da Perdiz. Passa pela fusão com o Atlético Sport Clube, em 1926, com
a consequente mudança de designação para Sport Clube de Guimarães, e pela
extinção e liquidação, nos primeiros meses de 1927, que se se seguiu um longo
período de ocaso, que só terminaria com o ressurgimento de 1931 e a inauguração
do campo do Benlhevai no dia 24 de janeiro de 1924, por iniciativa de um
operário: Carlos Machado, a quem o Vitória Sport Clube deve muito daquilo que é
hoje.
A história do Vitória merece mais.

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