Em defesa das passarinhas (e dos sardões)

Guimarães, 13 de dezembro de 2025: Passarinhas e Sardões: a última banca de Santa Luzia.

Aí está Guimarães, Cidade Natal. Iluminações, animação, carrossel francês, casa do Pai Natal, árvore de Natal no Toural, trenó iluminado na Alameda, pista de gelo, mercado, roda gigante, concertos… O programa é vasto. A criação e desenvolvimento do conceito, a divulgação e o andamento do programa festivo implicam, visivelmente, uma significativa mobilização de recursos materiais e humanos, naturalmente consensual entre os nossos decisores municipais, os que agora estão e os que estiveram antes. E percebe-se porquê: faz parte do caminho traçado para afirmar Guimarães como uma cidade cosmopolita que transpira modernidade. Seguimos para onde sopra o vento.

Pelo caminho da conversa, já se percebe que, no parágrafo de abertura deste texto, falta um “mas…”. Nada tenho a opor nem à modernidade, nem à animação natalícia na cidade. Nos dias que correm, Guimarães não se deixa ficar para trás e veste-se como qualquer outra cidade do nosso tempo. Mas, enquanto isso, há algo de nosso que vamos deixando morrer.

Em Guimarães, o período de Natal começava no último dia de novembro, por altura do Santo André, que tinha festa junto à capela de S. Lázaro, com continuação nos arraiais da Senhora da Conceição de Fora, a 8 de dezembro, e de Santa Luzia, no dia 13. Esta última coincidia com uma feira onde as famílias vimaranenses se abasteciam, entre outos produtos da época, dos frutos secos que vão para a mesa da consoada. Nessas três festas apareciam bancas passarinhas e os sardões, figuras toscas revestidas a açúcar e decoradas com papéis coloridos. Nos nomes e nas formas, “a malícia é evidente!” (a exclamação é do historiador e professor de medicina Luís de Pina).

A festa das passarinhas acontece no dia de Santa Luzia, a protetora dos olhos e está carregada de ironia maliciosa. Diz o povo que o amor entra pelos olhos. Quando se pede à santa que proteja os olhos, rapazes e raparigas lavam as vistas e trocam promessas carnais. O sagrado cura os olhos; o profano alegra a vista.

Diz-se que, na Guimarães de tempos idos, a ida à feira de Santa Luzia era um dos poucos momentos em que os rapazes e raparigas podiam interagir sem a vigilância apertada dos pais. A compra do doce servia de bilhete de entrada para uma conversa. O rapaz perguntava: "aceitas um sardão?". Se ela anuísse, estava tacitamente a aceitar a companhia dele durante a feira. Na volta, nova pergunta: “dás-me a passarinha?”. Se a moça lha entregasse, estava o namoro arranjado. Era um “Tinder” comestível.

O namoro com pastelaria não é um exclusivo de Guimarães. Os parentes mais próximos das passarinhas são de Amarante, os vernáculos “quilhõezinhos” ou “caralhinhos” de S. Gonçalo. O paralelo mais interessante encontramo-lo bem mais para norte, na Holanda e na Bélgica. Associa duas tradições singulares, comuns a Guimarães. Durante a festa de S. Nicolau (5 e 6 de dezembro), era tradição oferecer grandes bonecos de speculaas (bolacha de especiarias) chamados vrijer. O rapaz oferecia um boneco em forma de homem. Se fosse aceite, estava o namoro assumido. Tal como a passarinha e o sardão, esta é uma proposta de compromisso comestível. Uma tradição que está a desaparecer — não os bonecos, que se vendem aos milhares, mas o significado amoroso.

Em Guimarães, estão ambos em extinção — os doces e o significado. Na festa de Santa Luzia de 2025, só havia uma banca com passarinhas, sardões e afins, a da D. Cidália, a derradeira guardiã da tradição. Enquanto a última artesã moldar a massa na Feira de Santa Luzia, resiste uma forma de amar que envolve doçura, proximidade e toque. Se deixarmos morrer o sardão e a passarinha, o que resta? Um 'gosto' numa rede social qualquer, uma caixa de chocolates anódinos comprada à pressa e mais uma tradição vimaranense única a desaparecer. Se nada se fizer para o evitar.

Esta forma de celebração do namoro, em que o sagrado e o profano se conjugam numa troca de doces e que é uma sobrevivência da tradição dos rituais de inverno e de fertilidade europeus, pode ser salva. A sua salvação não virá da cristalização, mas sim da introdução de ajustes ao tempo que corre, sem desvirtuar o seu significado. Poderíamos começar por assumir que este ritual de namoro e fertilidade constitui um valor cultural de Guimarães e que o queremos preservar. Sabendo que o sardão não é feito de pão-de-ló, a adaptação poderia começar por uma chamada aos nossos pasteleiros para o tornar em algo que faça salivar os gulosos.

Não haveria grande dificuldade em conjugar tradições de Guimarães compatíveis com a quadra natalícia. O calendário da Cidade Natal poderia abrir portas no dia de Santo André, integrar a Senhora da Conceição e Santa Luzia — com passarinhas e sardões, esqueçam o S. Valentim alienígena: esse é o nosso dia dos namorados; apresentar às crianças o S. Nicolau original, o nosso, em vez da cópia pirata da Coca-Cola; substituir a árvore de plástico no Toural pelo Pinheiro dos estudantes, engalaná-lo e fazer dele a nossa árvore de Natal comunitária.

Ou isso ou deixar morrer o que nos distingue, para nos tornarmos iguais ao resto.

[Texto originalmente publicado no jornal O Comércio de Guimarães, de 16 dezembro 2025]

 

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