
Paridade nicolina (imaginada por IA)
Por
estes dias, volta a levantar-se o mastro que anuncia, urbi et orbi, que
os estudantes de Guimarães estão em festa. Começam as festas a que, em 1904,
João de Meira deu o nome, Nicolinas, num batismo tardio: os estudantes de
Guimarães já festejavam S. Nicolau há séculos, embora ninguém saiba dizer quantos.
Os documentos que o dia de S. Nicolau já era assinalado em Guimarães na
primeira metade do século XVII. Nada mais sabemos quanto à sua antiguidade, apesar
de serem visíveis traços das festas de rapazes da Idade Média. Até onde avançou
o conhecimento histórico das festas vimaranenses a S. Nicolau — e avançou
significativamente nas últimas décadas—, podemos afirmar que, com a sua
configuração atual, terão surgido algures na segunda década do século XIX.
No
dia em que escrevo, cumpri uma tradição: mostrei aos meus alunos o filme
Nicolinas, a obra-prima de Rodrigo Areias (sei bem que o Rodrigo já fez filmes
muito melhores, mas utilizo o significado original de obra-prima — a peça que o
aprendiz cria para provar aos mestres a sua aptidão para o ofício). Tirei as
ilações do costume: que os estudantes sabem muito pouco das suas festas, reduzindo-as
ao Pinheiro, e que os meus amigos que aparecem no filme são muito criativos nas
suas certezas, em particular quando fazem interpretações freudianas para
justificarem a interdição das festas às raparigas. Eis um assunto que parece
estar na ordem do dia.
As
estudantes têm o direito de participar nas festas? Claro que sim. Esse direito
é inerente à sua condição de alunas das escolas de Guimarães. O argumento da
tradição não colhe: se se assumir que as festas são exclusivas dos rapazes,
porque era assim no passado, teremos de assumir que, nos dias que correm, não
há em Guimarães um único rapaz que cumpra os requisitos da tradição inicial,
quando as festas eram privativas dos estudantes de latim da cidade.
Podem
raparigas integrar a Comissão das Nicolinas? Nada as impede. Um dia acontecerá.
Não por força de aportações paternalistas ditadas de fora, mas por força da
evolução natural das festas: quando houver raparigas que se candidatem à
Comissão. Para tanto, será necessária a mesma vontade e a mesma bravura com que
as suas mães ou as suas avós, enfrentando os insultos e os empurrões de velhos
jarretas, conquistaram o direito à participação no cortejo do Pinheiro.
As
raparigas têm o direito de participar nas Maçãzinhas, com os pés na praça e as lanças
nas mãos? Nada obsta, a não ser o significado daquele número, outrora o mais
importante (aliás, tudo o mais do programa das festas existia em função dos
festejos do dia do padroeiro, 6 de dezembro). Noto que, no tempo em que a entrega
das maçãs se fazia com todo o seu esplendor, com mascarados e grupos de danças,
já havia moças que erguiam lanças para oferecer maçãs às moçoilas das
varandas (na verdade, não eram moças, mas rapazes travestidos e abonecados).
Sendo a entrega das maçãs, como sói dizer-se, uma representação do namoro à
moda antiga (ou seja, de um tempo em que a igualdade de género era tópico ignorado),
em que a donzela ficava à varanda, em ânsias com o tardar do cavaleiro por quem
suspirava, passará a ter uma natureza e um significado diferente, no dia em que
a donzela se colocar no lugar do cavaleiro e o cavaleiro for suspirar para o
balcão. Reconheço que tal inovação me inquietaria muito menos do que o regresso
às práticas “mais tradicionais” usadas no século XVII, em dia de S. Nicolau,
quando estudantes invadiam casas, forçavam mulheres, perseguiam, aterrorizavam
e molestavam moças…
As
Festas Nicolinas, pela sua singularidade cultural, sociológica e etnográfica,
cumprem todas as condições para integrarem a Lista de Património Imaterial da
UNESCO, a saber: transmissão e continuidade, identidade comunitária, riqueza
cultural e reconhecimento comunitário. Já passaram 20 anos desde que foi
apresentada a proposta inicial, de Lino Moreira da Silva, depois acolhida pela
Assembleia Municipal, por proposta do PSD. Pôs-se em marcha o processo, uma
comissão da AM recolheu contributos, contratou-se um investigador para elaborar
um estudo histórico-etnográfico, que tardou a ser apresentado e ficou aquém do
esperado (para além de valorizar preconceitos contrários ao propósito da
candidatura, que a própria UNESCO não valoriza), submeteu-se o pedido de
registo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que ainda estará
por despachar.
Entretanto,
numa demonstração de que a demora não se explica por falta de capacidade
instalada, o processo de classificação de Couros foi lançado, preparado,
submetido e aprovado pela UNESCO.
Continuámos,
pacientemente, à espera, suspeitando que nunca se fez muita força para que a
candidatura avançasse. Aguardemos o que a Câmara, agora dirigida pelo partido
que fez da candidatura das Nicolinas um desígnio de Guimarães, tem a dizer
sobre o assunto.
[Texto
originalmente publicado no jornal O Comércio de Guimarães, de 25
novembro 2025]
2 Comentários
Bom ano também para ti, Eduardo.