A noite e o dia — a cultura em Guimarães, antes e depois do 25 de Abril

  

Liberdade e cultura em Guimarães
(Gerada por IA)

Se vamos falar de cultura, comecemos por onde ela se inicia: a escola.

Estávamos no final da década de 1970, quando fui chamado à inspeção militar. Tive então o vislumbre duma uma realidade inesperada: a maioria dos meus conterrâneos que nasceram no ano em que nasci não tinha mais do que a 4.ª classe. Alguns nem isso e, entre esses, ainda havia analfabetos. Poucos frequentaram o ensino secundário e apenas dois seguiram para a universidade. Tínhamos, todos, 18 anos e vivíamos num país em que, segundo o recenseamento de 1970, metade da população não tinha completado quatro anos de escolaridade.

Em 1974, o Liceu era a única escola pública de Guimarães com ensino secundário de Ciências e Letras (correspondente ao 3.º ciclo do ensino básico e ensino secundário) do concelho de Guimarães). Além dos vimaranenses, acolhia muitos estudantes de outros concelhos — Fafe, Felgueiras, Famalicão, Celorico de Basto. Hoje, Guimarães conta com dezassete escolas que lecionam o 3.º ciclo e o ensino secundário. Em 1974, havia em Guimarães uma Escola do Magistério Primário e sonhava-se com uma escola de enfermagem. Nos dias que correm, tem uma universidade, com dois campi e quase duas dezenas de licenciaturas. A evolução do ensino é o melhor espelho da transformação cultural do último meio século.

Guimarães destaca-se pela vitalidade do seu ambiente cultural, corporizado por uma intensa vida cívica e associativa, cujas origens retrocedem até à geração de visionários que começaram a mudar Guimarães na década de 1880. Esse movimento transformador, iniciado por eruditos como Martins Sarmento, José e Alberto Sampaio, Avelino da Silva Guimarães, Joaquim José de Meira ou o Abade de Tagilde e consolidado por estudiosos, escritores e artistas na linha de João de Meira, Eduardo de Almeida, Alfredo Pimenta, Abel e Mário Cardoso, A. L. de Carvalho ou Alberto Vieira Braga, fez da cultura uma das imagens de marca de Guimarães.

Em meados do séc. XX, com o progressivo desaparecimento dos homens que a animaram, a vida cultural vimaranense perdeu fulgor. A principal instituição cultural da cidade, nascida em 1881 para promover a instrução popular, tinha adotado, progressivamente, um perfil elitista: mais do que promover a cultura cidadã, aspirava a afirmar-se na Alta Cultura nacional. Por ausência de renovação geracional, faltavam novos protagonistas.

A chegada a Guimarães de J. Santos Simões, em 1957, para lecionar na Escola Técnica, trouxe um suplemento de energia para o movimento cultural vimaranense. A criatividade, a sabedoria, o método, o rigor, a persistência e a infinita capacidade de trabalho que traçavam a sua personalidade, não tardaram a dar frutos. Santos Simões assumiu a direção do Suplemento Cultural do Notícias de Guimarães, que se tornou numa referência no seu género. A Sociedade Filarmónica Vimaranense mudou para Sociedade Musical Vimaranense. Do Ritmo Louco nasceram o CAR e o Teatro de Ensaio Raul Brandão, assim como viria a surgir a Biblioteca da Gulbenkian. Formou-se o Cineclube de Guimarães. Surgiu a Associação Cultural Convívio. A cultura era um instrumento de consciencialização política. Nas vésperas do 25 de Abril, o trabalho cultural estava produtivo e atuante em Guimarães, assumindo-se como uma forma de resistência à censura e à repressão.

Em liberdade, a sede de conhecer o que a ditadura proibira— os livros, o teatro, os filmes, as canções — impulsionou a criatividade dos vimaranenses, materializada nas associações culturais do concelho, as que persistiam e as que iam nascendo.

Estabilizada a democracia, a atividade cultural continuou a viver essencialmente da capacidade de organização do movimento associativo e da dedicação e generosidade dos vimaranenses. As eleições autárquicas de finais de 1976 não alteraram este quadro (até porque, por aqueles dias, os orçamentos municipais não davam, como diria António Magalhães, para mandar cantar um cego). Na década de 1980, o quadro começou a mudar. A Câmara Municipal adquiriu maior capacidade financeira, que se refletiu na disponibilidade de mais verbas para a atividade cultural.

Aqueles foram dias interessantes: a autarquia dispunha meios para afetar à cultura, mas não tinha vocação, nem capacidade organizativa, para a produzir. O essencial da promoção cultural continuou a surgir da prática associativa, alimentada pelo voluntarismo dos vimaranenses e apoiada pela Câmara e pelos patrocínios que se angariavam. Viveram-se momentos marcantes, como o Festival de Teatro Amador de Guimarães, os Festivais Gil Vicente, a Circultura, a Euroarte: Encontro Europeu de Arte, as Quartas-Feiras Culturais, o Cinema em Noites de Verão, os Encontros da Primavera, o Guimarães Jazz, o Congresso Histórico de Guimarães…

A década de 1990 marca o início da mudança de paradigma na cena cultural vimaranense. A Câmara dotava-se de recursos humanos e técnicos, à medida que assumia a programação cultural da cidade. Boa parte dos eventos nascidos em contexto associativo passaram a ser entregues à estrutura da autarquia, que se ia profissionalizando e robustecendo. O Município assumia-se como promotor e produtor cultural, instalando na Oficina uma capacidade de produção e gestão de eventos e de equipamentos culturais com uma dimensão nunca antes conjeturada. Entretanto, o vazio deixado pelo encerramento do Teatro Jordão e do Cinema S. Mamede, foi preenchido com a construção do Auditório da Universidade do Minho, do Centro Cultural Vila Flor e do Pavilhão Multiusos.

Na viragem para o séc. XXI, depois de que passar por uma requalificação urbana exemplar, que lhe traria o reconhecimento como Património Mundial, Guimarães estava pronta para grandes cometimentos culturais. Atrás de si, tinha mais de um século de investimento na cultura como veículo de desenvolvimento.

A Capital Europeia da Cultura em 2012 não caiu do Céu. E nunca teria acontecido se o 25 de Abril não tivesse rompido com o orgulhosamente sós de Salazar.

António Amaro das Neves

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