A criação da Universidade do Minho, em 1973, no âmbito da reforma
do ensino superior concebida por Veiga Simão, foi acolhida discretamente em
Guimarães. Por aqueles dias, a Sociedade Martins Sarmento limitava-se a “pugnar pela criação em Guimarães de uma
Faculdade Tecnológica” e “ventilar a criação de uma Faculdade de Letras e
Ciências Sociais” e as preocupações da Câmara
Municipal centravam-se em ver cumprida a promessa de uma escola de enfermagem.
Contestado pelas forças mais conservadoras das velhas
universidades, o processo de criação da Universidade do Minho seria
condicionado por tensões locais. Vozes bracarenses defendiam que, tal como as
outras, a instituição deveria ter o nome de uma cidade. Universidade de Braga,
portanto. Em Guimarães, invocando-se a dinâmica industrial e comercial da sua
região, que se refletia na receita fiscal que aí se gerava, reivindicava-se a
instalação da universidade em território vimaranense.
A Comissão Instaladora (CI) presidida por Carlos Lloyd Braga,
investida no dia 17 de Fevereiro de 1974, seria confrontada com poderosos jogos
de influência junto do poder central, em que sobressaíam o deputado Duarte do
Amaral, do lado de Guimarães, e o comendador Santos da Cunha, por Braga.
Após o derrube da ditadura, as discussões prosseguiram, assim como
a resistência do status quo universitário, em que se destacou o
historiador Vitorino Magalhães Godinho, Ministro da Educação e Ciência no I
Governo Provisório, que opunha à criação de novas universidades a capacidade
das existentes se reformarem, defendendo que a concentração de meios seria
preferível à sua dispersão.
No início de 1975, quando Santos Simões passou a integrar a CI, já
não se discutia a existência nem o nome da Universidade do Minho. O debate
centrava-se na localização das instalações definitivas. Em Braga ou em
Guimarães? Em Braga e em Guimarães?
A opção da comissão instaladora foi a da criação de uma
universidade concentrada num único campus. Encomendou um estudo, de que
resultou um mapa com 24 manchas de terreno. A CI foi unânime em optar pela
mancha 5, um terreno com 60 hectares situado na margem esquerda do rio Ave, a
jusante da ponte das Taipas, com condições para acolher um campus
universitário moderno e com potencial para afirmar o eixo Braga-Guimarães como
uma nova área metropolitana. Mas essa opção encontrou resistências em Braga
(afinal, as Taipas ficam em território vimaranense) e, estranhamente, em alguns
setores de Guimarães. Ignorando os argumentos da CI, o ministro da Educação do
VI Governo Provisório, Coronel Vítor Alves, decidiria, salomonicamente, que a
Universidade do Minho ia ser do “tipo bipolar”, com os cursos de engenharia em
Guimarães e os restantes na cidade de Braga.
Em vez de uma universidade, Guimarães apenas teria direito a uma
escola, o que foi lamentado por Santos Simões, quase duas décadas depois, no
memorável discurso que proferiu na homenagem que a Universidade do Minho lhe
fez:
“Guimarães, da Universidade tem apenas uma tabuleta, e uma Escola
extremamente prestigiada, mas votada a um isolamento científico que em nada
contribuiu para a sua afirmação universitária.”
As suas palavras seriam, finalmente, escutadas. O mestrado em
História das Populações e a criação do curso de Geografia e Planeamento já
abriam o caminho. Da conjugação da inteligência e da vontade política das
sucessivas equipas reitorais e da sociedade e dos políticos vimaranenses,
começou a ser cumprido o sonho de Guimarães ter uma universidade, que hoje
conta com uma oferta de 19 licenciaturas, distribuídas dois campi
(Azurém e Couros) e diversas áreas científicas e artísticas.
A Universidade do Minho,
“a primeira universidade portuguesa que tem o nome de uma região e não de uma
cidade”, como notou o seu primeiro reitor, completa
50 anos no dia 11 de agosto de 2023. No dia seguinte, cumpre-se o centenário do
nascimento de J. Santos Simões. Dois dias para Guimarães lembrar.

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