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| Mestre Gaspar Carreira. (Imagem: A Oficina) |
No tempo em que a rainha D. Isabel tratava
da reedificação do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde se recolheria
depois de viúva, escreveu uma carta a D. Dinis, em que se subscrevia como a
“vossa amadeira Isabel” e pedia urgência na obra de uma “ralete para o reso”
(grade para o coro da Igreja) que o rei mandara fazer em Guimarães, “por lá
jazer o mestre mais boo”. O rei respondeu-lhe numa missiva datada de
Santarém, “a doze andados de julho”, de um ano que se não indica, afirmando que
estava “certo que será de jeito o ralete que não haja outro tal qual ele”. O
mestre ferreiro que gozava de tal prestígio na corte de Portugal chamava-se Mem
Anes e terá sido, como sugere A. L. de Carvalho, o iniciador de “uma larga
família de proletários, enxertados no mesmo ofício ou similares”.
De Guimarães era também o mestre ferreiro
que afeiçoou a espada com que o Condestável Nuno Álvares Pereira se bateu em
Aljubarrota, celebrizado na peça “O Alfageme de Santarém ou a espada do
Condestável”, mas que não chamava Fernão Vaz, como Garrett lhe chamou, nem era
de Santarém. Chamava-se João de Guimarães e, de onde ele era, diz o seu nome.
A tradição das artes de trabalhar o ferro
em Guimarães é tão antiga quanto o velho burgo, onde havia uma rua Ferreira e
uma rua da Forja. As oficinas situavam-se nos pisos térreos de casas de sobrado,
aparelhados com a forja, a bigorna, o fole de couro para avivar o fogo do
carvão de choça, a tina de água para temperar o ferro incandescente, a mó de
esmeril para o afagar, os tornos e a parafernália das ferramentas do ferreiro —
chegadeira, malhos, martelos, tenazes, ponteiros, talhadeiras, polidores.
Daquelas oficinas rústicas saíam ferramentas para muitas artes e ofícios (enxadas, foices, sachos, roçadoiras,
machados, martelos, torqueses, trados, verrumas, serras de mão), apetrechos domésticos (sertãs,
cutelos, colheres de gancho), ferragens para a construção (dobradiças,
ferrolhos, fechaduras, aldrabas, batentes, grades de ferro para portões,
janelas, varandas e varandins), guarnições para mobiliário, e toda a qualidade
de artefactos necessários à vida, como camas, candeeiros ou fogões. Alguns
destes mestres da forja e da bigorna eram artistas especialmente dotados, que produziam
obras com um refinamento inesperado, em mãos tão rudes.
Com o tempo, foram rareando os artesãos que
trabalhavam o ferro nas ruelas do centro urbano de Guimarães. Até que só sobrou
um. Com oficina na rua de Donães, o último guardião da tradição vimaranense de
trabalhar o ferro, Gaspar Carreira, prosseguia a arte do seu avô, de quem
herdou o nome e de cujas mãos saiu o portão do Claustro da Colegiada, e
continuada pelo seu pai, Álvaro, que fez gradeamento que protege o cruzeiro com
a lamentação de Cristo Morto, hoje conhecido como o Cruzeiro da Senhora da
Guia.
Das mãos de Gaspar Carreira continuaram a
sair, durante décadas, a par dos artefactos banais do quotidiano, as encomendas
mais exigentes de arquitetos e empreiteiros. E, numa vida paralela, concebeu e
deu forma a uma surpreendente obra de escultura. Fez em ferro aquilo que outros
moldavam em barro: figuras que saíam da sua imaginação, de feição popular, algo
ingénua, com entoação satírica, muitas vezes corrosiva, quase escatológica. Deu
corpo a figuras que habitam o imaginário e a identidade vimaranenses, como
Afonso Henriques, Mumadona, a Senhora da Oliveira ou D. João I, mas também a vultos
da cultura nacional, como Camões, Pessoa ou Saramago. E, como o alfageme do Condestável,
também fez espadas.
Quando o Centro Histórico de Guimarães, na
sequência do exemplar processo de reabilitação de que foi laboratório e
beneficiário, começou a atrair as atenções do mundo, com a posterior elevação a
Património Mundial e a consagração da cidade como Capital Europeia da Cultura, o
rosto do mestre Gaspar Carreira tornou-se n uma das imagens de marca de
Guimarães e a sua oficina passou a integrar o roteiro dos locais turísticos de
visita obrigatória na cidade.
Em meados de novembro de 2018, o último
ferreiro de Guimarães teve de abandonar as paredes encrustadas de negro de fumo
de três gerações da velha oficina familiar. A partilha da herança dos seus pais
obrigou a que a casa fosse vendida. Gaspar Carreira perdeu o seu local de
trabalho. Fechou a porta carregado de memórias e de lágrimas nos olhos. Partia,
mas levava o bichinho lá dentro. E uma remota esperança em promessas já
antigas, que nem seriam difíceis de cumprir, até porque seria do interesse da
cidade que continuasse a sua arte e a ensinasse a quem a quisesse aprender,
para que não se perdesse.
Mais um nome, este um pouco menos anónimo,
a juntar à já longa lista de danos colaterais do imparável processo de
gentrificação que está a mudar o modo de vida do burgo que Mumadona fundou.
No dia em que escrevo esta crónica,
encontrei o Senhor Carreira em frente à loja do Júlio, junto à rua de Donães.
Perguntei-lhe como iam as coisas.
Respondeu-me com os olhos carregados de
tristeza:
“Cortaram-me as mãos.”

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