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| O Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães (1867-1941 |
Dizem
que assim são as cerejas. Pega-se numa que puxa outra, que arrasta a seguinte,
e por aí fora, até que se começa a ver o fundo do cesto. Esta conversa,
iniciada pelo Rui Vítor Costa, começou com a preparação de uma exposição sobre
os nomes das ruas históricas de Guimarães, passou pelos projetos de urbanização
da cidade e, até ver, perambula pela obra do Capitão Luís Augusto de Pina
Guimarães.
Nascido
no dia 25 de agosto de 1867, na freguesia de S. Sebastião, do seu pai, Luís de
Pina, natural de Penalva do Castelo, mas com raízes em Guimarães, onde casou e
montou oficina de serralharia, recebeu o nome singelo com que foi batizado —
Luís. O sobrenome Guimarães não o foi buscar à família, mas à cidade onde
nasceu. Há quem o explique pela tradição militar de chamar os recrutas pelo
nome da terra de origem, mas sem razão. Em 1886, em plena crise
brácaro-vimaranense, entre os membros da comunidade vimaranense subscritores de
um apelo para a desanexação de Guimarães do distrito de Braga e a união ao
Porto, está Luís Augusto de Pina Guimarães, então com 18 anos e empregado de
comércio dado às artes nas horas vagas. Três anos mais tarde, voltamos a ter
notícias suas: participou e foi premiado numa exposição de “rosas e belas-artes”
realizada em Guimarães, com uma pintura a cores, um desenho à pena e uma
“escultura de crayon”. Também o vemos dedicar-se ao jornalismo, tendo sido, em
1894, o primeiro correspondente de Guimarães do jornal O Século.
Ao
talento para o desenho ficou a dever o ingresso na carreira militar. É o seu
amigo Eduardo de Almeida que nos conta: “ofereceu ao Rei D. Luís, por
intermédio do Conde de Ficalho, o desenho a lápis, em grandes proporções do
Mosteiro da Batalha, e D. Luís, vendo que estava ali alguém, facilitou-lhe os
estudos militares”. Ingressou na Escola Prática de Artilharia, nas Vendas
Novas, de onde saiu em 1897, casado e alferes, embarcando logo em seguida para
a África Ocidental.
Fez
carreira militar em Angola, destacando-se nas Campanhas de Pacificação e Ocupação,
que consolidaram o domínio colonial português. Em 1898 destacou-se na defesa da
fortaleza do Humbe, sob ataque de revoltosos, sendo louvado pelo Ministério da
Marinha. No mesmo ano foi nomeado administrador do concelho de Benguela e
ajudante do governador do distrito. A sua carreira africana culminou nos
Dembos, território de difícil pacificação, onde exerceu funções de comandante
militar. Como governador do Forte João de Almeida, empreendeu notáveis
melhoramentos, substituindo as frágeis construções de capim por edifícios sólidos
e com condições de defesa eficaz. O ponto alto da sua carreira deu-se a 23 de
julho de 1908, quando comandou a expedição que tomou e destruiu a banza de
Cazuangongo, impondo o domínio português em território hostil. Pelos seus
feitos, foi agraciado com diversas condecorações e louvores, com destaque para o
oficialato da Ordem da Torre e Espada.
Atacado
pela malária, regressou a Guimarães em 1909, onde foi recebido como herói. A
Câmara Municipal inscreveu em ata o reconhecimento pelos serviços prestados à
Pátria, e a imprensa local saudou-o como “herói dos Dembos”. Por esses dias,
proferiu, na Sociedade Martins Sarmento, uma memorável conferência sobre as
campanhas de Angola, ilustrada com mapas e desenhos da sua própria mão.
Com
a implantação da República, o Capitão Pina assumiu funções políticas locais.
Foi vereador na primeira Câmara Municipal republicana, deixando claro, em
entrevistas e artigos, o seu compromisso com os ideais democráticos. No mesmo
período, assumiu a direção do jornal republicano A Alvorada. Dos muitos
cargos públicos e associativos que desempenho, destaca-se o de administrador do
concelho, no final da primeira década da República.
Com
uma sólida experiência de trabalhos de engenharia militar, adquirida em Angola,
irá desempenhar, nas décadas seguintes, um papel fundamental no urbanismo
vimaranense. Logo em 1911 elaborou o projeto da chamada “marquise do Toural”,
uma galeria coberta de ferro e vidro que pretendia modernizar e valorizar a
praça central da cidade. Embora nunca concretizado, o projeto ficou como
testemunho da sua visão estética e funcional para Guimarães. Levantou a planta
do Concelho, a planta da Cidade, que mostrou na Exposição Industrial de 1923, a
planta da canalização das águas, traçou estradas e caminhos vicinais.
1925,
o ano em que foi proclamado sócio honorário do Vitória Sport Clube, aparece
como um marco na sua obra em Guimarães: delineou o plano de alargamento da
cidade para nascente, desenhou o pavimento em mosaico do jardim do Toural e a
decoração da delegação do Banco do Minho, concebeu e criou, em plena egiptomania
desencadeada pela descoberta do túmulo do faraó Tutankhamon, o Café Oriental,
obra com um enorme impacto artístico e social.
Democrata
convicto, viu a sua estrela empalidecer com a Ditadura Militar e o Estado Novo,
mas manteve a sua condição de figura respeitada da sociedade vimaranense. Nos
últimos anos da sua vida, foi funcionário da Repartição Técnica da Câmara
Municipal de Guimarães, deixando uma marca indelével no perfil urbano da cidade
e do concelho. Faleceu em novembro de 1941.
“Guimarães
esquece-se todos os dias daquilo mesmo que todos os dias melhor conhece”,
escreveu Eduardo de Almeida num texto que dedicou ao seu amigo. E é aqui que
voltámos ao princípio das cerejas, ou seja, ao nome das ruas. Com uma pergunta:
—
Onde fica a rua (ou a avenida, ou a praça) Capitão Luís de Pina Guimarães?
[Texto
originalmente publicado no jornal O Comércio de Guimarães,
de 23 setembro 2025]

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