Antes quebrar, que torcer

Guimarães: "Antes quebrar que torcer"

Há cidades que se distinguem pelo seu património monumental, outras pela sua paisagem natural, outras ainda pelo papel que desempenham nas narrativas nacionais. Guimarães distingue-se por tudo isso, mas também por algo que a torna verdadeiramente única: um modo de ser e de viver que nasceu da sua história, da sua cultura, da memória acumulada em séculos de trabalho, de festa, de luta, de crença, de pertença. O que faz de Guimarães uma cidade especial é o seu povo, a forma gregária como habita o espaço comum, o fervor apaixonado com que se envolve nas causas da cidade, a consciência de que ser vimaranense não é apenas uma condição administrativa, mas um traço de identidade que se adquire por nascimento ou adoção.

Esse modo de ser foi transmitido de geração em geração, num fio quase inquebrável. Mas temo que hoje já não passa com a mesma força de pais para filhos. Por outro lado, o discurso oficial, que privilegia a modernidade, parece mais empenhado em alinhar Guimarães com outras cidades do mundo contemporâneo, do que em preservar aquilo que a faz diferente. É grande tentação de tornar Guimarães “igual às outras” com que se quer comparar, e manifesta-se nos sinais do quotidiano: celebrou-se a chegada do tuc-tuc como se fosse um progresso civilizacional; fez-se festa na introdução de trotinetes e bicicletas elétricas, que mal duraram o tempo da fotografia com os autarcas; entrega-se espaço público simbólico ao usufruto  esplanadas; ocupa-se a noite com ruído importado, DJs e festas que pouco têm a ver com a tradição vimaranense e que desrespeitam uma população já envelhecida (e a língua portuguesa).

Fala-se em gentrificação — palavra que pode soar desajustada numa cidade que não é uma grande metrópole, mas que começa a fazer sentido em Guimarães. O Centro Histórico vai deixando de ser espaço vivido pela comunidade para se tornar cenário de consumo turístico, mais próximo do catálogo, do que da memória. Esse processo é tanto mais preocupante quanto coincide com uma transformação do perfil político local. Houve um tempo, no pós-25 de Abril, em que quem assumia a condução da cidade eram homens e mulheres que a conheciam profundamente, que a amavam, que sabiam das suas tradições, das suas fragilidades e potencialidades. Hoje parecem prevalecer projetos de vida e de carreira: mais do que as ideias e a dedicação à coisa pública, tendem a prevalecer as negociações internas, os sindicatos de votos, a ocupação de lugares em listas que se decidem longe dos cidadãos. É a política assente em clientelas, não em ideias.

Um exemplo desta inversão é a forma como se discute a mobilidade. Guimarães é um concelho extenso, disperso por dezenas de freguesias mal servidas de transportes públicos. A prioridade deveria ser como garantir a quem vive em Rendufe, em Gonça ou em Atães o acesso rápido e digno à cidade, ao hospital, à escola, ao emprego, ao teatro, ao cinema. Mas o que alimenta os debates eleitorais é a ligação a Braga,  transformada em fetiche, com propostas que parecem servir mais a Braga do que a Guimarães e que ignoram que já existe uma autoestrada pronta a ser aproveitada para transporte público eficiente. Entretanto, esquecem-se as ligações internas, esquecem-se as pessoas que não têm carro, esquecem-se os mais velhos, ignoram-se os desígnios ambientais. Coloca-se a ligação a Braga à frente do compromisso com a coesão territorial de Guimarães.

Guimarães mudou muito, para melhor, nas últimas décadas. O último quartel do século XX abriu caminho às classificações da UNESCO, ao reconhecimento da cidade como Património Mundial, ao triunfo da Capital Europeia da Cultura em 2012. O progresso foi real, visível, inegável. Mas não aconteceu à custa da diluição daquilo que somos. Muito pelo contrário.

A grande questão, para quem acredita em Guimarães, é esta: conseguiremos continuar a ser modernos sem deixarmos de ser nós próprios? É possível inovar sem descaracterizar, crescer sem esquecer, abrir ao mundo sem perder o chão? Eu acredito que sim. Mas para isso é preciso que voltemos a ter governantes que não usem Guimarães como trampolim para projetos pessoais, mas que a sirvam com a mesma paixão com que, durante séculos, tantos e tantas souberam erguê-la.

O que faz de Guimarães uma cidade especial não são o Castelo, o Centro Histórico ou os rótulos da UNESCO. É, antes de tudo, o modo apaixonado como a sua gente sempre soube viver em comunidade. É esse fio que não podemos permitir que se torça.

Porque os de Guimarães são gente de antes quebrar que torcer.

[Texto originalmente publicado no jornal O Comércio de Guimarães, de 26 de agosto de 2025]

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