Depois do terramoto

 

O sismo autárquico (imaginado por IA)

O título desta crónica poderá parecer um pouco exagerado. Mas não é. Durante três décadas, o sismógrafo eleitoral de Guimarães quase não buliu. Entre 1989 e 2009, prevaleceu um regime de baixa sismicidade, estável e consistente. Quatro em cada cinco vimaranenses votavam nos partidos do chamado bloco central, com o PS sistematicamente junto dos 50% e o PSD à volta dos 30%. A partir de 2013, com o limite de mandatos de António Magalhães e a passagem de testemunho a Domingos Bragança, registaram-se microssismos quase impercetíveis: a margem direita do espetro político ganhou alguma amplitude, com a coligação do PSD ao CDS (que, aliás, já acrescentava pouco), mas sem abalar a estabilidade da estrutura — o ponteiro do PS quase não se mexia.

No dia 12, porém, registou-se um sismo com uma magnitude surpreendente. Os alicerces do edifício demonstraram assinalável resistência (Guimarães continua a votar consistentemente no bloco central), mas foi sentido um abalo com uma magnitude de 20%, decorrente da deslocação da margem do PS acima do PSD de 14%, em 2021, para 6% abaixo, em 2025. O por resultado socialista desde 1982, quando ficou a 109 votos de ganhar a Câmara. O epicentro localizou-se no convento de Santa Clara, com réplicas de menor intensidade nas freguesias, onde o PS mantém capilaridade. Por outro lado, o Chega provoca vibração curta e os partidos mais à esquerda continuam a revelar abaixamento de energia vital. A quebra da abstenção e a deslocação de votos do PS para o PSD, mais do que o voto útil à direita, funcionaram como aceleradores sísmicos, libertando energia acumulada ao longo das últimas décadas.

Como os sismos, que não podemos prever, mas sabemos que irão acontecer, os resultados eleitorais foram surpreendentes, mas não se pode dizer que a mudança da agulha fosse inesperada.

Do lado dos candidatos derrotados, é hora de lamber as feridas, especialmente as dos pés, resultantes dos tiros que neles se deram. Mas também é tempo de reflexão sobre o caminho que se percorreu para se chegar ao desastre. As eleições não se ganham antes de os cidadãos, os donos dos votos, votarem. Ganham-se com a humildade de quem sabe que pode ganhar ou perder, não com a sobranceria de quem acha que o dia das eleições é uma mera formalidade, porque o resultado já está decidido. As eleições não se decidem nos corredores das sedes partidárias onde, em vez de se discutirem as soluções para os problemas da cidade, escolhendo os mais bem preparados para os enfrentar, se barganham lugares nas listas e nas dependências municipais, em função do peso interno dos diferentes grupos de interesses que por ali se cruzam. Com sindicatos de votos submetidos a ambições pessoais e a coligações de excluídos podem-se tomar os órgãos de decisão partidários, mas não se ganham eleições.

Bem ou mal, desde cedo se começou a alimentar a ideia de que a candidatura de Ricardo Costa à Câmara Municipal estava contaminada por propósitos de ajustes de contas, que saltaram à vista na formação a lista candidata à Câmara, liderada por quem, justa ou injustamente, foi excluído em 2021. Não faltou quem se perguntasse, perante tal alinhamento de ilustres desconhecidos, se entre os vereadores em funções, com experiência e provas dadas, não haveria um único que servisse para introduzir uns laivos de continuidade. Depois foram os sucessivos sinais de rejeição e menosprezo do maior trunfo eleitoral de quem assume incumbência, a herança de 36 anos de obra feita. Finalmente, a cereja em cima do bolo: a decisão de rejeitar o PDM proposto pela Câmara do seu partido, sem que se percebessem as motivações, dando espaço à desconfiança e revelando ausência de intuição política da parte de quem não terá percebido que deveria afastar de si tudo quanto pudesse avivar a memória do seu maior tropeço enquanto responsável autárquico, o famigerado processo Ecoibéria.

Por último, percebendo que a derrota é especialmente amarga e dolorosa se nunca se admitiu que pudesse acontecer, foi notório que o candidato derrotado não foi feliz na hora da derrota. Depois de uma campanha alimentada com discursos na primeira pessoa, o mantra futebolístico do “quando perdemos, perdemos todos” ou a justificação da dimensão da derrota com uma maior afluência às urnas (quase mais 10.000 votantes do que em 2021), quando o seu partido diminuiu significativamente o número de votos, não contribuem para gerar simpatia pela dor do derrotado.

Pelo contrário, para os vencedores, a vitória terá sido especialmente doce por não ser esperada — e muito menos com a dimensão de um arraso. É verdade que, do outro lado, foi feito um trabalho muito eficiente para perder as eleições que eram dadas como ganhas, mas tem muito mérito quem fez tudo bem para ganhar as eleições que se tinham como fatalmente perdidas. Aliás, o candidato a presidente da Câmara da coligação liderada pelo PSD foi dando algumas indicações de que estava longe de dar como adquirida a possibilidade de vitória, nomeadamente quando se candidatou a deputado nas eleições deste ano ou quando preparou uma lista de candidatos à Câmara onde não se percebia quem estava talhado para ocupar cada um dos pelouros do executivo municipal.

Quem, como eu, assistiu ao primeiro debate entre os dois principais candidatos, organizado por alunos da Escola Francisco de Holanda, deve ter percebido que algo estava a acontecer. Esta perceção ganhou corpo à medida que iam sucedendo os debates. Numa campanha em que dificilmente se discernia quem se posiciona mais à direita ou mais à esquerda, os alinhamentos acabaram por resultar da demonstração de conhecimento, preparação e empatia. Foi aí que Ricardo Araújo começou a ganhar. Por outro lado, a capacidade de fazer pontes para setores da sociedade vimaranense distantes da matriz ideológica do seu partido e uma campanha bem pensada, conduzida e municiada, através das redes sociais, com argumentos corrosivos para a gestão socialista (que os oponentes deixavam sem resposta, supostamente por entenderem que aquilo não era com eles), ajudaram a construir a ideia de que os vimaranenses ansiavam por uma mudança. E foi a mudança que o povo decidiu.

Do novo presidente da Câmara espera-se que faça jus ao que dele se espera, que derrube muros e que não se rodeie apenas de fiéis seguidores, bajuladores e subservientes. Que não dê ouvidos aos que lhe sussurram que ele é o rei. Quem foi um bom presidente do CAR tem boa escola para ser um bom presidente da Câmara de Guimarães. Desejo-lhe uma transição pacífica, sem roupa suja exposta em público, marcada pela civilidade, pela tolerância, pela abertura à sociedade e capacidade de encaixe para as instâncias de cidadania exigente, que tem vivido tempos de adormecimento.

Por último, aquele que termina o seu mandato à frente dos destinos da cidade, Domingos Bragança, como, antes dele, António Magalhães, António Xavier, Manuel Ferreira e Edmundo Campos, merece o nosso respeito e reconhecimento pela parte substancial da sua vida dedicada ao serviço de Guimarães. Reconheça-se-lhe que fez o melhor que sabia e pôde para o progresso e melhoramento de Guimarães e das suas gentes.

Para lá da espuma dos dias de campanha, é incontestável que hoje vivemos numa cidade melhor do que a que tínhamos no passado e é este o grande desafio para quem agora chega: honrar o legado, fazer mais, fazer melhor.

[Texto originalmente publicado no jornal O Comércio de Guimarães, de 21 outubro 2025]


Comentar

0 Comentários