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| Pecados divinos. (Gerada pos IA |
Nenhuma cidade ou vila de
Portugal goza de tão justa reputação no fabrico e tempero da lambarice como
Guimarães.
Folha da Tarde, n.º 133, Lisboa,
1884 (publicado no Relatório da Exposição Industrial de Guimarães em 1884).
O Natal é doce. Na mesa da consoada há rabanadas, mexidos,
sopa seca, sopa dourada, bolo-rei, pão de ló, sonhos. Em Guimarães, há também
toucinho do céu, um justo equilíbrio de ovos, açúcar, amêndoa, doce de chila e
fogo. Um dia, um repórter da revista Time testemunhou o seu regalo ao
provar um tal manjar, ousando afirmar que Guimarães é mais conhecida pelo seu bacon
from heaven do que por ter sido berço da nação…
Definido pelo padre Rafael Bluteau, o primeiro dicionarista
português, como “uma espécie de doce delicado”, o toucinho do céu é um manjar de
idade desconhecida, confecionado nos conventos femininos de Guimarães (não
faltam referências à sua elaboração pelas freiras mundanas de Santa Clara, mas
também o faziam as recatadas domínicas de Santa Rosa do Lima).
Embora consumido em qualquer época do ano, este é um doce de
Natal, como está sobejamente demonstrado em farta documentação do século XVIII.
As freiras de Santa Clara, pouco dadas aos rigores monásticos, eram universalmente
conhecidas pelas suas doçuras. Os seus dotes confeiteiras atingiram tal primor
que lhes granjeou fama em Guimarães, em Portugal e mais além. Os rendimentos
que desta arte serviam de complemento ao que recebiam em cada ano para o seu bolsinho,
com que cobriam os seus gastos, maioritariamente mundanos.
Com o tempo, a indústria assumiu foros de abuso, a pontos de
se sucederem as advertências e as proibições dos superiores eclesiásticos. O
Arcebispo de Braga, no início de Dezembro de 1758, por lhe constar que as
freiras de Santa Clara de Guimarães costumavam, pelo Natal, gastar mais tempo a
fazer doces do que no serviço a Deus (além de se dedicarem a danças e
entremezes profanos), interditou-lhes o uso dos talentos pasteleiros, desde o
início do Advento até aos Reis. Em outubro de 1760, esta proibição foi reafirmada
e agravada por um decreto do mesmo arcebispo, oque ordenava que no convento de
Santa Clara não se fizessem doces de qualquer qualidade desde 15 de outubro até
6 de janeiro, sob pena de excomunhão maior, a não ser que obtivessem licença
expressa que as autorizassem a fazê-los no tempo interdito.
Por entre reclamações e dissimulações, as freiras de Santa
Clara de Guimarães sempre se mostraram arredias à obediência aos interditos do
prelado bracarense, tratando de corresponder à procura, que era grande e
exigente. Em 1759, houve mesmo um eclesiástico cioso dos seus direitos, o abade
de Santa Cristina de Arões, que apresentou queixa ao juiz de fora de Guimarães,
alegando que a caixa de doce que lhe foi mandada entregar pelas freiras de
Santa Clara, no dia da padroeira da sua paróquia, no cumprimento de um costume
antigo, continha menos doce do que o era esperado. Derrotado em primeira
instância, por o juiz considerar que a oferta do doce não era um direito de que
ele gozasse, mas sim um gesto de “primor, mimo e galanteria” das clarissas, o
abade lambareiro interpôs recurso da sentença para a Relação do Porto. Não teve
sucesso. Daí para a frente, teria de pagar pelo usufruto da lambarice.
O convento de Santa Clara foi extinto em 8 de setembro de
1891, com a morte da sua última freira (o mesmo havia sucedido, em março de
1888, com o de Santa Rosa do Lima), mas < confeção de toucinho do céu de
Guimarães não se perdeu, subsistindo em algumas casas com fama de seguirem a tradição
do fabrico doceiro dos velhos conventos da cidade. Ainda persiste um antigo
rumor de que uma serviçal do convento de Santa Clara, ao abandonar o convento,
terá levado consigo o livro de receitas das clarissas — objeto de muito duvidosa
existência, não havendo notícia de que alguém, até hoje, lhe tenha posto a
vista em cima. O que não impede que o toucinho do céu permaneça como a mais
soberba especialidade da doçaria tradicional vimaranense e continue a ser
protagonista na nossa mesa de Natal
Mas nem tudo o que por aí se vende como toucinho do céu é
toucinho do céu de Guimarães. Muitas vezes, é apenas um doce de forno à base de
chila, com ovos e resquícios de amêndoa, muito apreciado pelos apreciadores dos
fios de chila.
Aqui fica um desejo para o ano novo: pensar na classificação
do toucinho do céu de Guimarães com a Indicação Geográfica Protegida.
Para que nunca nos falte no Natal.

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