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| O primeiro derby do Minho, num cartoon de Miguel Salazar |
No
dia 17 de dezembro de 1922, no terreiro fronteiro ao cemitério da Atouguia, o
Vitória Sport Clube, em vez do anunciado Maçarico
Sport Club, da Póvoa de Varzim,
teve pela frente uma seleção “um tanto estropiada” de jogadores de clubes
poveiros. Para a história, ficou registado o resultado de 4-1, a favor dos
vimaranenses. Aquela data assinala o mais antigo registo da Vitória, até hoje
conhecido, embora, por uma qualquer convenção cuja fundamentação ainda
desconhecemos, se assinale o dia 22 de setembro como a data da sua fundação.
Seja em que dia for, este ano, celebra-se o primeiro centenário.
Conhece-se mal a primeira década da história do
principal clube vimaranense. Apesar da importância que o Vitória Sport Clube
adquiriu ao longo do século XX, e que o tornou num dos principais embaixadores
da cidade de Guimarães, não tem havido qualquer investimento no estudo da sua
história pelo clube, em especial das suas primeiras décadas, que continuam a
ser contadas com base no que diz a tradição, quase toda ela de transmissão
oral, mas sem confirmação documental.
A história oral é uma área da investigação que tem
ganho notoriedade desde meados do século XX, com a crescente facilidade do
recurso de gravadores de som, que permitiram que os registos de relatos orais
ganhassem relevância como fontes históricas, a par dos documentos, das
fotografias e, cada vez mais, dos registos de imagem em movimento. Ao longo das
décadas, a história oral foi aperfeiçoando a sua técnica e a sua metodologia de
investigação, tornando-se especialmente útil no registo de história de vida. Os
depoimentos orais tornaram-se numa ferramenta recorrente nos estudos de
história contemporânea. No entanto, têm problemas que obrigam a que os
testemunhos recolhidos tenham que ser objeto de um trabalho rigoroso de crítica
e análise do seu conteúdo. Todos sabemos que o mesmo acontecimento, quando
narrado por testemunhas diferentes, tende a ser contado de maneiras diferentes,
sem que qualquer das testemunhas esteja a mentir deliberadamente. E, se isto é
verdade para algo que sucedeu ontem ou há apenas algumas horas, muito mais o
será quando escutamos um testemunho do que aconteceu há anos ou décadas.
Mas esse não é um problema para o investigador
criterioso: a crítica interna e externa das fontes, nomeadamente
confrontando-as com outros documentos disponíveis, é algo que os historiadores
fazem em relação a todos os documentos com que trabalham.
Mas esta é uma falsa questão quando se trata de um
assunto que ocorreu num tempo de que já não há sobreviventes com memórias para
contar. Infelizmente, da fundação do Vitória já não há ninguém vivo a quem
possamos entrevistar para perguntar como foi. O que não quer dizer que não seja
possível saber muito mais do que aquilo que se sabe, com recurso às fontes
históricas disponíveis, quer voltando a olhar para as que já são conhecidas,
quer procurando o que ainda não foi encontrado, nem tratado.
Está demonstrado, porque os documentos o demonstram
sem margem para dúvidas, que a primeira direção do Vitória Sport Clube não é a
que se supunha ser, mas uma outra que a antecedeu, constituída por gente muito
jovem e presidida pelo filho do político republicano Mariano Felgueiras, que
tinha o mesmo nome e que, há época, contava pouco mais de 18 anos. Se o Vitória
Sport Clube assume ou não oficialmente essa direção como a sua primeira
direção, esse não é um problema da investigação histórica, mas um problema do
Vitória Sport Clube. Até porque não existe essa coisa chamada história oficial,
a não ser em regimes totalitários. Para nós, este é um problema resolvido, mas
levanta uma questão muito mais interessante e intrigante: porque é que os
primeiros dias do Vitória caíram no esquecimento?
O trabalho para se responder a essa pergunta está
em curso. Estou certo de que teremos resposta. Do que sabemos, dos documentos
que já estão tratados, é que da história da primeira década do Vitória, ainda
há muito de interessante para contar.
Será contado, fica a promessa.

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